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a obra

  • May 20, 2017
  • 2 min read

tomámos o pequeno-almoço lá fora e pedi-lhe desculpa pelo estado em que tenho o jardim, muito melhor, mesmo assim, do que há uns dias atrás, a relva aparada, as bunganvílias cortadas, a mandala do fogo coberta de cinzas, os muros caiados de branco, o lixo quase todo no lixo

- tenha calma, vá lá, toda a obra leva o seu tempo

disse ele e sorriu.

servi-lhe um sumo e passei-lhe o cesto do pão, o mel, a manteiga, a ansiedade que me consome quando ainda não estou bem acordada, passei-lhe a mão pelas asas apenas para me certificar que continuavam macias e a seguir servi-me também, um copo de sumo bem cheio, uma fatia de pão com manteiga, o mel da voz dele a escorregar-me pela garganta e a adoçar o jardim, podia jurar que o verde da relva estava mais manso e que um fogo novo nascia das cinzas, labaredas enormes lambiam-me os dedos, mas nada me ardia, o sol baloiçava no canto dos pássaros e até a roseira se transfigurara de forma a parecer liberta dos espinhos.

- por que é que não pode ser sempre assim?

perguntei, mas sem querer, no fundo, que me respondesse nem porque não, nem porque sim, apenas que se mantivesse por perto, por dentro, que velasse por mim quando o fogo esmorecesse, que esperasse ao meu lado pelo florir das buganvílias, que partilhássemos juntos o crescimento da relva e o sol e os pássaros e que, se não fosse para sempre, que fosse ao menos enquanto a obra durasse

- mas de que obra é que está a falar?

perguntou ele, ao mesmo tempo que voltava a encher o copo de sumo.

esperei que acabasse e apontei para mim.


 
 
 

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